segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

Outro Caminho




Começou o dia muito animada. Havia acordado cedo para assistir TV, e agora estava indo à biblioteca para pegar alguns livros. Sua mãe se assustara com a sua animação, mas não disse nada. Pôs o café sobre a mesa e a chamou para sentar.

-Não mãe!Já estou atrasada!Irei à biblioteca, e logo depois passearei pela praça para ver se encontro algo de novo!

A mãe realmente estava espantada, pois havia algum tempo que não via Brida sair de casa nem para ir à padaria!

Ao sair, Brida ligou seu discman, botou uma musica animada e começou a caminhar pela manhã ensolarada de terça-feira. Começou a pensar que realmente havia muito tempo que não saía de casa, desde sua formatura do colegial, a dois meses atrás.

Sentia-se triste, pois perdera quase todos os amigos. Alguns foram embora,outros estavam trabalhando,namorando, enfim, ela estava completamente sozinha e com medo do seu futuro.

Na escola sempre fora esforçada para obter boas notas, e sempre recebia vários elogios. Mas de nada adiantou!Pensava. Estava num beco sem saída, apenas com sonhos e planos, sem dinheiro, deixando com que sua força de vontade fosse derrotada pela falta de oportunidades.

E agora, estava indo a uma biblioteca, pegar livros, para passar o tempo, para tentar esquecer-se das dificuldades, do medo.

Sempre acreditara que iria ser diferente, que não iria ser tão difícil, mas se enganara e o que lhe restava era apenas sonhar. Gostaria de estudar em outra cidade, ser alguém. Mas as possibilidades eram praticamente zero.

Passando por uma esquina qualquer, distraída em seus pensamentos, um grupo de garotos a impressionam derrubando-a no chão, roubando sua bolsa e seu discman. Em questão de segundos estava ela agora esparramada pelo chão, sem dinheiro e sem condições de se levantar, pois havia ralado as pernas e caído em cima de um dos braços. Estava acabada. Foi por sair de casa que aconteceu isso. Antes ficasse lá assistindo TV!Pensara ela.

Já estava quase na hora do almoço e ninguém aparecia por ali para lhe dar uma ajuda, até que um certo homem a avistou.

Brida com muita dificuldade foi se levantando aos poucos, e o homem disse lhe com muita vergonha:

-Olha moça, eu sou catador de papelão, não tenho carro, o hospital fica próximo, e a pé a senhorita não conseguirá chegar. Eu não tenho dinheiro para o táxi, mas com todo o respeito, eu posso levá-la no meu carrinho. Sei que é desconfortável e vergonhoso mais se você não ver o que aconteceu com o braço e fazer um curativo nas pernas,poderá piorar.Desculpa senhorita pela proposta,mais é que eu me preocupei com você.

Nesse momento Brida se emocionou de ver tanta bondade em uma pessoa tão simples. Ela não poderia negar, pois estava doendo muito e também ele era o único que ali se encontrava. Disse que sim. E subiu no carrinho.

Foram conversando durante o trajeto até o hospital, falando sobre a vida. Ele contou que morava na favela e seus três filhos estavam presos. Sua mulher havia falecido há dois anos, vítima de câncer. Morava com uma netinha de três anos que durante a tarde deixava–a na creche. Era uma vida difícil, mas mesmo assim a garota sentiu naquele homem uma coisa diferente, boa e feliz. Nesse momento Brida ficou observando-o. Sua roupa rala, a barba mal feita, os pés num chinelo furado, e apenas uma coisa de valiosa havia em seu corpo: uma aliança de ouro, toda riscada, mas, contudo, em seus dedos calejados. Era a aliança de seu casamento.Ele sofria muito com a perda de sua mulher.

Enfim eles chegam e Brida, com a ajuda do velho, entra no hospital que por incrível sorte estava quase vazio.

Ela é atendida no mesmo instante, e após 1 hora de espera do velho, ela chega com os braços engessados. Espanta-se pelo fato do homem ainda estar esperando-a.

-Mais o que faz o senhor ainda por aqui? Está perdendo tempo para trabalhar!Por favor!Não queria ter causado imprevistos em seu dia.

-Não foi um imprevisto senhorita. Foi apenas mais uma prova que a vida me pôs para testar-me. Foi mais uma oportunidade de estender os braços a alguém. De poder ajudar, do meu jeito simples, mas sincero.

Ao ouvir essas palavras Brida desejou ir para casa para poder refletir sobre sua vida. Sobre o seu dia planejado por ela, mais escrito de outra forma.

Agradeceu emocionada ao homem, que lhe ofereceu uma “carona” de volta pra casa. Ela recusou. No rosto daquele pobre homem, apresentava muito cansaço. Ela disse que agora chamaria um táxi e pagaria assim que chegasse em casa.Ele concordou,dizendo a ela para tomar muito cuidado,concluindo:

-Durante toda a nossa conversa eu senti que você não é uma pessoa completamente feliz. Não deixe que simples problemas do dia-a-dia se transformem em grandes problemas para a vida. A felicidade é uma coisa simples e que exige ser vista e vivida de uma forma simples!

Brida, com toda a sinceridade e agradecimento do mundo abraçou-o e disse:

-Muito obrigada por ensinar-me hoje o que eu levarei para toda a vida.

Ao virar as costas para entrar no táxi, o velho já tinha desaparecido como uma nuvem, e ela confusa ficou sem entender como ele poderia ter ido tão rápido com seu carrinho de papelão.

Chegou em casa.Abraçou sua mãe.Entrou no seu quarto.Começou a pensar na vida.E sentiu que a partir daquele momento teve forças o suficiente para lutar.Para ser.Para vencer.

E depois daquele dia, Brida sempre aparecia naquela esquina. Mais nunca encontrava ninguém. Nem o velho e nem os garotos que tinham lhe roubado.

Lutou. E conseguiu. Passou no vestibular mais sonhado e no ano seguinte ia começar uma nova vida.

E da sua janela, que dava para a vista mais bonita da cidade, pôs-se a pensar na vida enquanto o sol iluminava o seu rosto, como se ali já começasse a brilhar uma nova estrela.

Um comentário:

Sarah Toledo disse...

Ana! =)

Que coisa incrível, eu me vi na Brida... rs. Ano passado fazia a mesma coisa todas as quartas-feiras: ia na biblioteca e ficava horas, escolhendo livros e fugindo da realidade... Bom, não apareceu nenhum velhinho pra me fazer enxergar essas coisas, mas de alguma forma eu vi. E seu texto só me faz ver que vi certo, rs.

Hum... Eu não recebi nenhum e-mail seu, moça. Será que te dei o endereço errado? rs. Agora to com a pulga atrás da orelha.

Bjim.