quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Capa amarela


Ultimamente as palavras decidiram ficar engasgadas por aqui.Elas ficam mergulhando sozinhas em meus oceanos.Umas se afogam,outras aprendem a nadar mas não se importam em me informar quando elas estarão afim de anunciar suas vitórias ou derrotas...
E foi numa discussão comigo mesma sobre tal assunto,que encontrei Joaquim na esquina da Rua das Àrvores,dentro de uma capa de chuva amarela.Eu estava nua para as águas que percorriam meu corpo.Saí desprevenida e preferi não guardar a chuva quando ela saiu de sua gaveta...
Joaquim era reto,magro,alto e tinha linhas na testa.Ele me disse que estas linhas causavam ânsia quando olhava para o espelho e o faziam lembrar da matemática que fabricava sentimentos de fracasso por ter de depender dos cálculos para salvar uma parte da vida.
Joaquim também não mais encontrava palavras para expressar suas dores .Ele estava cansado.
Cansado de desenhar nos braços e pintar as paredes da sala todas as manhãs...Cansado de fazer perguntas e encontrar apenas meias verdades.Cansado de virar a esquina da Rua das Árvores,onde já não existia mais árvores mas concreto,barulho,nuvens cinzas e tristes flores de plástico.Estava cansado de ter que viver até sangrar para conseguir algo que tem fim.
As roupas que lavava eram como as dores que varria na varanda de madrugada,esperando um telefonema enquanto dormia no chão frio sonhando que já não tinha um telefone. Joaquim me olhava nos olhos enquanto me dizia sobre seu cansaço.Até hoje,ainda temo em dizer a alguém um simples “olá,tudo bem?” e ficar sem reação ao ouvir novamente palavras como as de Joaquim. Joaquim estava cansado de ser.E sei que muitos estão.
Mas Joaquim era diferente e se foi como as palavras.Talvez tenha rasgado a capa amarela e se afogado na chuva,ou aprendeu a nadar e hoje encontrou um sentido.Ainda sento na Rua das Árvores quando chove e para dar sorte,vou sem guarda-chuva.



Foto e texto:Ana.

10 comentários:

Sarah Toledo disse...

um "oi, tudo bem?" pode receber outras respostas além de "tudo, e vc?". e em certos momentos isso é bom. perceber outros modos de vida, de pensamentos, de cansaço até...

nem sempre guarda-chuvas são úteis. às vezes é bom se deixar molhar. não apenas no sentido literal.

inté.

Marrí disse...

Ana,

As Ana's que eu conheço tem um talento que eu gosto. Até as que eu nunca vi!!!

Linkei este blog, pois eu volto...

Pri C. Figueira disse...

Como dói muitas vezes essa nossa indiferença...
Quando nossos olhos por momentos abrem para olhar o mundo somos impactados com o que vemos!
Mas é algo maravilhoso quando permitirmos nos envolver e deixar que a chuva nos envolva...

Bela reflexão!!!

Ahh, ficar sem ler suas palavras, vou sentir uma falta, espero que seja apenas por um curto tempo!
Obrigada por suas palavras tão doces, obrigada por suas palavras que enchem meu coração!!!

Fico no aguardo, ansiosa por seu retorno!!

Bjs e que meus braços se estendam até aí e sintas um abraço bem apertado!

jeffao_araujo disse...

Muitas vezes fazemos questão de abrirmos nossos imensos guarda-chuvas e agir indiferente com as situações ao nosso redor.
Quantas pessoas estão na chuva. com capas. escondidas. cansadas.
E nós também nos cansamos.
Casamos de carregamos toda uma (falsa) proteção qe nos cerca, e escolhemos em sair na rua, com a chuva batendo na cara, doendo talvez, porém sentimos em nossa própria pele a dor, a alegria, a liberdade.

Já falei isso mais de uma centena de vezes e vou repeti:
Adoro ler-te.
Fico muito feliz em ter te encontrado nesse universo de blogs. Que sorte a minha. Tb é bom saber que existem poetas cristão que glorificam ao nosso Deus através da arte que o próprio Pai lhes deu.

Que Deus ti abençõe

Victor Canti disse...

sensacional, tem uma originalidade e criatividade perfeitas, sua maneira de escrever é cativante e este texto é mais uma prova disso...
tb começarei a sair sem guarda-chuva, vai q dou sorte...rs
beijão

Uerlle Costa disse...

Sua originalidade e criatividade enchem os meus olhos linda.

Beijos.

Thyago David. disse...

Ow Ana, muito bom viu?
E olha que as palavras estão se engasganto, se não estivessem!?

kkkk

Beijos.

jeffao_araujo disse...

Eu tô morrenco de saudades.
Espero que voltes logo.
Caso passes por aqui, tem um selo lá no meu canto para ti.
bjus

Eduardo Trindade disse...

Fico a imaginar a cena, a história... É confortante saber que temos a chuva, chuva de diferentes formas, a levar, lavar e trazer momentos. Como versos. Ou palavras.

Abraços!

Dani Santos disse...

Ana!!! Tantas e tantas coisas por aqui. Palavras-águas de chuva, a lavar feridas e medos, a limpar os sonhos das poeiras cotidianas, a descolorir os abandonos e a tingi-los com cores mais lindas de encontros.
Abraços a ti e a tuas palavras-encantos...