terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Verso-Lágrima

Não poderia deixar de compartilhar aqui um dos textos que me fez derramar lágrimas, sorrir, pensar,calar, esperar,sonhar,cantarolar, enfim... permitir que as palavras de fato cumpram com seu ofício de tocar a alma do leitor...
O texto é de Eucanaã Ferraz que faz parte de um livro chamado Aquela Canção (que reúne 12 contos inspirados em canções da nossa Música Popular Brasileira) e se baseia numa das canções mais belas de nosso país, Carinhoso (Pixinguinha e João de Barro).
Não consigo descrever tamanha beleza desse conjunto de sentidos, apenas repasso com todo o coração.




VEM

Eucanaã Ferraz

Porque os dias quebravam contra sua cara,
porque trocara as horas por nada,
quis o espinho extremo.

Mas, sobre encontrá-lo, ninguém
nem nada respondia. Saberia reconhecê-lo
em meio a tudo? Algum sinal?

Um cisne gravado na testa? Talvez
bastasse, à distância, atentar
nos modos de dobrar

ou desfazer as frases, um lenço, que
talvez ali, no levar água à boca, moeda
à bolsa, banal, vislumbrasse

um rasto, imaginava, mesmo sem saber
(não saberia nunca?) o que fosse
aquilo que faria do acaso

o certo,
até que se manifestasse numa forma
inadiável, que figuraria o fruto de

uma longa matemática. Porque seria assim,
poderia ver na matéria mínima a sua fábrica,
o incêndio

que sobreviria contra a indiferença dos seus dias.
Mas as ruas são compridas, era preciso
estar mais perto para perceber, e

logo baralhava unhas, vozes, cabelos
à maneira de uma teia aos pedaços que
o fazia adolescente como um pombo

tonto. Mesmo sem vestígios, farejava.
Em meio à palha das palavras, farejava.
O que as costelas dos viadutos escondiam?

Becos, praças, ruas, paisagens que lhe subiam
à boca enchendo-o de inocência e desejo.
Era mais seguro não querer. Mas

envenenara-se com o anseio de que
a cidade desaguasse em alguém, não fosse tão-só
pedras de seus olhos se ferirem. Mais seguro

era cegar as vontades. Cerrados, os olhos
calariam o teatro excessivo dos gestos. Talvez
dormisse. Mas a insônia vinha branca

e ácida e alta. Houve uma vez um comandante
prussiano, recostado ao fundo da poltrona,
cavando com as esporas de sua bota o mármore

da lareira, lembrava-se, era mais fácil
deixar a solidão crescer no vento, vir ao quadril,
lembrava-se do conto enquanto seus olhos

erravam pelas avenidas, esperança em pêlo, juízo
em vão, fome de um relance, um fio. Suave,
se ainda soubesse, era beber sem supor alguém

após o drinque, gastar-se só, sem presumir
um abraço à saída do cinema, à saída de
sábado. Mas ele sacrificaria qualquer ponderação

para persistir no engano de seguir
à própria sorte por mundos que semelhavam
estacionamentos abarrotados de frases moles,

blogs, celulares, fazer amigos, impressionar pessoas,
dicionários como se fósforos para queimar o tempo,
o tédio, saudades de quando não vagava devastado

pela espera (pela espora, dizia o conto)
de uma lâmpada após o labirinto,
por aquela presença tão-só pressentida,

mas que talvez por adivinhada ardia ainda mais.
Tudo (um exagero) escarnecia dele, sequioso de que
regressasse quem nem mesmo houvera, Ulisses

ou o filho pródigo caminhando sobre o mar
etílico, turbulento. Canções de amor
foram o seu veneno,

todas à roda da mesma víscera,
da mesma válvula sentimental,
podia senti-la,

sem amores nem romances, sangue
e bomba apenas, como no peito de um bicho,
que é só um bicho. Então, exausto,

sem nenhum grito, deitou-se
sobre a pedra escura da rua, ou da escarpa
mais alta, ou da lua mais miserável e suja.

Esteve ali, parado, manso,
talvez por anos, sem que nada pedisse
ou pretendesse. E era só uma noite

entre as noites, quando despertou agitado
(deve ter sido assim) pela visão de uns lábios,
vinham acesos, na direção dos seus.



2 comentários:

Larissa Campos disse...

Não tenho nem palavras. Realmente.
Bom, está estampado meu viver no texto, algo tão gostoso e triste de se sentir.
Muito obrigada por ter compartilhado.
Um grande abraço.

Ana Raquel disse...

Fico extremamente feliz!