terça-feira, 29 de março de 2011

Ordem de despejo


Nada me cabe:
nem as meias,calças,acessórios pros cabelos,
anéis,vinho na boca,ar pras narinas,calor.
Todos os corpos,talvez eu deva acreditar,
que todos eles estão sozinhos pelo excesso de desejo.
As rimas estão entaladas, sublinhadas  e submersas 
dentro do peito,dentro do leito e da lama do não-luar.
Por onde passo ouço barulho de tudo,
mas meu carnaval é outro
meu bloco ainda não passou e se já passou
esqueceu de me buscar
na esquina onde recebi a ordem de despejo.
Despejo de mim,despejo de ti, despejo
da vida salgada
da vida limitada
que batuque algum vai suportar.
Quero tornar-me fonte, riacho,mar ou
qualquer curva,qualquer canto,
pros meus vazios se afogarem
em meu transbordar.


7 comentários:

Rodrigo Tomé disse...

Um poema cinzento, diferente do teu canto de passarinho, mas tão honesto quanto. Gosto de poemas livres assim, tenho lido muito Álvaro de Campos e Walt Whitman.

Drummond:

"Olhos sujos no relógio:
não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo ainda é de fezes, maus poemas, alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse."

E Chico

"Quem me vê sempre parado, distante
Garante que eu não sei sambar
Tou me guardando pra quando o carnaval chegar
Eu tô só vendo, sabendo, sentindo, escutando
E não posso falar
Tou me guardando pra quando o carnaval chegar"

Maísa Loyen ou Fernanda Barros disse...

Que lindo, Ana!
Acho que ando "despejando" algumas coisas...rsr, mas é melhor assim.

Saudade!
até do nosso sorvete que nunca se concretizou!
rsrs

Michele P. disse...

Ana

Invejo tua escrita sempre tão espontânea e tão cheia de verdades!

Lindo!

Cecília Sousa disse...

"Quero tornar-me fonte, riacho,mar ou
qualquer curva,qualquer canto,
pros meus vazios se afogarem
em meu transbordar." Me tirou o fôlego. Muito bom. Triste. Mas hà beleza na tristeza também, nao é?

http://bernardoececilia.blogspot.com/

Poeta da Colina disse...

Caber pode se tornar um limite desnecessário.

Não há nada que não possamos ser.

Sarah disse...

Nada me cabe. Nem as palavras agora. Não é o que um escritor geralmente espera, mas o meu silêncio é o que melhor tenho a oferecer diante de escritos como esse. Assim não corro o risco de atrapalhá-los


Um abraço.

Eduardo Trindade disse...

Muito bem escrito, guria, transbordando sentimento! Afinal, todos temos dias em que não cabemos em nós mesmos, e às vezes cabe à poesia arranjar espaço para o que virá. Triste, sim, mas sincero. Lembrei do João Cabral: "O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço..."